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Na Tira-Olhos, associação criada em Julho de 2019 por um conjunto experimentalistas com formação em fotografia, praticamos uma fotografia lenta. É maioritariamente uma fotografia-sem-câmara, em que procuramos aprofundar diálogos entre a realidade experimentada e os processos escolhidos para revelar a natureza sensorial dessa experiência. Tratamos, portanto, de questões relacionadas com a significação e a representação: partimos de referentes, indícios e símbolos, para lhes conferir sentido através de diferentes modos processuais, trabalhando suportes, formas, texturas e cores. É também, essencialmente, uma prática com várias etapas, sendo que a experimentação e a contemplação atravessam todas elas.

Muito à semelhança dos processos realizados nos primórdios da história da fotografia, os tempos das imagens por nós criadas são os de uma sinfonia sem compasso. À medida que nos dedicamos a este modo de fazer lento, vamos descobrindo que este fluxo de trabalho contamina toda a nossa estrutura de linguagem e, por isso, todo o nosso ser.

Vamos criando raízes nesta nossa casa e trabalhando para que a urgência do tempo cronológico não entre aqui. Aqui, o tempo é uma experiência subjectivada, interiorizada e revelada de acordo com o tempo corpóreo e ambiental. Aqui, vamos deixando que a fotografia, enquanto mediadora, nos vá transformando.

Trabalhamos com diferentes tecnologias, vulgarmente designadas por processos alternativos. Mas este conceito tem pouco valor para nós. Alternativa a quê, se outra coisa não se apresenta como natural? Preferimos falar antes de uma ideia de fotografia lenta ou fotografia consentida, i.e., um modo de fazer imagens que procura a representação por meio da relação entre os objectos e os processos escolhidos para os revelar. Recorremos à antotipia, à cianotipia, aos luminogramas, ao papel salgado, ao colódio, à goma dicromatada, entre outros processos, e vamos brincando aos alquimistas, tentando que o flow nos conduza na experiência da criação.


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Matéria-Prima

A vegetação espontânea atravessa as nossas obras, tanto ocupando o lugar de referente, como incorporando as fórmulas químicas com que exploramos a criação de mancha e cor.

Fazemos por respigar em consonância com o que a natureza coloca ao nosso dispor, respeitando os seus ritmos. Essa prática contamina também o modo como encaramos os suportes de impressão, bem como os dispositivos de apresentação.

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Composições

No espectro de etapas que acompanham o nosso modo de fazer, a composição é, inevitavelmente, aquela que exige a maior qualidade de tempo. É um dos momentos em que a técnica dá lugar à forma e a nossa experiência da paisagem se começa a revelar.

Consequência dos formatos em que nos encontramos a trabalhar, a composição tende a ser um processos moroso, em que andamos à volta do sol, numa dança exigente que ganha forte expressão corpórea.